O livro de Jó trata do sofrimento humano. Depois Jó e seus amigos conversam, em diálogos poéticos, procurando achar explicação para tanta desgraça. No final Deus aparece e dá a resposta.

Humildemente Jó reconhece que ele não é nada diante de um Deus tão poderoso e sábio e se arrepende de haver usado palavras duras e violentas.

JÓ E SUA FAMÍLIA

Na terra de Uz morava um homem chamado Jó. Ele era bom e honesto, temia a Deus e procurava não fazer nada que fosse errado. Jó tinha sete filhos e três filhas e era dono de sete mil ovelhas, três mil camelos, mil bois e quinhentas jumentas. Tinha também um grande número de escravos. Enfim, Jó era o homem mais rico de todo o Oriente. Os filhos de Jó iam às casas uns dos outros e davam banquetes, cada um por sua vez. E as três irmãs eram sempre convidadas para esses comes-e-bebes.
Quando terminava uma rodada de banquetes, Jó se levantava de madrugada e oferecia sacrifícios em favor de cada um dos seus filhos, para purificá-los. Jó sempre fazia isso porque pensava que um dos filhos poderia ter pecado, ofendendo a Deus em pensamento. (JÓ 1 v. 1-5)

SATANÁS PÕE EM DÚVIDA A SINCERIDADE DE JÓ

Chegou o dia em que os servidores celestiais vieram apresentar-se diante de Deus, o Senhor, e no meio deles veio também Satanás. O Senhor perguntou:
- De onde você vem vindo? Satanás respondeu:
- Estive dando uma volta pela terra, passeando por aqui e por ali.
Aí o Senhor disse:
- Você notou o Meu servo Jó? No mundo inteiro não há ninguém tão bom e honesto como ele. Ele Me teme e procura não fazer nada que seja errado.
Satanás respondeu:
- Será que não é por interesse próprio que Jó te teme? Tu não deixas que nenhum mal aconteça a ele, à sua família e a tudo o que ele tem. Abençoas tudo o que Jó faz, e no país inteiro ele é o homem que tem mais cabeças de gado. Mas, se tirares tudo o que é dele, verás que ele te amaldiçoará sem nenhum respeito.
O Senhor disse a Satanás:
- Pois bem. Faça o que quiser com tudo o que Jó tem, mas não faça nenhum mal a ele mesmo. Então Satanás saiu da presença do Senhor. (JÓ 1 v. 6-12)

JÓ PERDE OS FILHOS AS RIQUEZAS

Um dia, enquanto os filhos e as filhas de Jó estavam num banquete na casa do irmão mais velho, chegou à casa de Jó um dos seus empregados, que disse:
- Nós estávamos arando a terra com os bois, e as jumentas estavam pastando ali perto. De repente, os sabeus nos atacaram e levaram tudo. Eles mataram à espada os empregados, e só eu consegui escapar para trazer a notícia.
Enquanto este ainda estava falando, veio outro empregado e disse:
- Raios caíram do céu e mataram todas as ovelhas e os pastores. Só eu consegui escapar para trazer a notícia.
Enquanto este ainda estava falando, chegou um terceiro, que disse:
- Três bandos de caldeus nos atacaram e levaram os camelos. Eles mataram à espada os empregados, e só eu consegui escapar para trazer a notícia.
Enquanto este ainda estava falando, chegou mais um, que disse a Jó:
- Os seus filhos e as suas filhas estavam no meio de um banquete na casa do seu filho mais velho. De repente, veio do deserto um vento muito forte que soprou contra a casa, e ela caiu em cima dos seus filhos. Todos eles morreram; só eu consegui escapar para trazer a notícia.
Então Jó se levantou e, em sinal de tristeza, rasgou as suas roupas e rapou a cabeça. Depois ajoelhou-se, encostou o rosto no chão e adorou a Deus. Aí disse assim:
- Nasci nu, sem nada, e sem nada vou morrer. O Senhor deu, o Senhor tirou; louvado seja o seu nome!
Assim, apesar de tudo o que havia acontecido, Jó não pecou, nem pôs a culpa em Deus. (JÓ 1 v 13-22)

A SEGUNDA PROVA DE JÓ

Chegou de novo o dia em que os servidores celestiais vieram apresentar-se diante de Deus, o Senhor, e Satanás também veio no meio deles.
O Senhor perguntou:
- De onde você vem vindo?
Satanás respondeu:
- Estive dando uma volta pela terra, passeando por aqui e por ali.
Aí o Senhor disse:
- Você viu o meu servo Jó? No mundo inteiro não há ninguém tão bom e tão honesto como ele. Ele me teme e procura não fazer nada que seja errado. No entanto, você me convenceu, e eu o deixei desgraçar Jó, embora não houvesse motivo para isso. Mesmo assim, ele continua firme e sincero como sempre.
Satanás respondeu:
- É só tocar na pele dele para ver o que acontece. As pessoas não se importam de perder tudo desde que conservem a própria vida. Agora, se estenderes a mão e ferires o corpo dele, verás como ele, sem nenhum respeito, te amaldiçoará.
O Senhor disse a Satanás:
- Pois bem. Faça o que quiser com Jó, mas não o mate.
Aí Satanás saiu da presença do Senhor e fez com que o corpo de Jó ficasse coberto de feridas horríveis, desde as solas dos pés até o alto da cabeça. Jó sentou-se num monte de cinza e pegou um caco para se coçar. E a mulher dele disse:
- Você ainda continua sendo bom? Amaldiçoe a Deus e morra!
Jó respondeu:
- Você está dizendo uma bobagem! Se recebemos de Deus as coisas boas, por que não vamos aceitar também as desgraças? Assim, apesar de tudo, Jó não pecou, nem disse uma só palavra contra Deus. (JÓ 2 v. 1-10)

A VISITA DOS AMIGOS

Jó tinha três amigos: Elifaz, da região de Temã; Bildade, da região de Sua; e Zofar, da região de Naamá. Eles ficaram sabendo das desgraças que haviam acontecido a Jó e combinaram fazer-lhe uma visita para falar de como estavam tristes pelo que lhe havia acontecido e para consolá-lo. De longe eles não reconheceram Jó, mas depois, quando viram que era ele, começaram a chorar e a gritar. Em sinal de tristeza, rasgaram as suas roupas e jogaram pó para o ar e sobre a cabeça. Em seguida sentaram-se no chão ao lado dele e ficaram ali sete dias e sete noites; e não disseram nada, pois viam que Jó estava sofrendo muito. (JÓ 2 v. 11-13)

A QUEIXA DE JÓ

Finalmente Jó quebrou o silêncio e amaldiçoou o dia do seu nascimento. Jó disse:
Maldito o dia em que nasci! Maldita a noite em que disseram: ‘Já nasceu! É homem!’
Que aquele dia vire escuridão! Que Deus, lá do alto, não se importe com ele, e que nunca mais a luz o ilumine!
Que a escuridão e as trevas o dominem; que as nuvens o cubram e apaguem a luz do sol!
Que aquela noite fique sempre escura e que desapareça do calendário!
Que seja solitária e triste aquela noite, e que nela não se escutem gritos de alegria!
Que seja amaldiçoada pelos feiticeiros, aqueles que têm poder sobre o monstro Leviatã!
Que escureçam as estrelas da sua manhã; que ela espere a luz, e a luz não venha; e que a sua madrugada não chegue,
pois ela deixou que minha mãe me desse à luz e não me poupou de todo este sofrimento!
“Por que não nasci morto? Por que não morri ao nascer?
Por que a minha mãe me segurou no colo? Por que me deu o seio e me amamentou?
Se eu tivesse morrido naquele momento, agora estaria dormindo, descansando em paz.
Estaria com reis e altas autoridades que reconstruíram palácios antigos
ou estaria com governadores que encheram as suas casas de ouro e de prata.
Se a minha mãe tivesse tido um aborto, às escondidas, eu não teria existido e seria como as crianças que nunca viram a luz do dia.
Na sepultura acaba a agitação dos maus, e ali repousam os que estão cansados.
Ali os prisioneiros descansam juntos e já não ouvem mais os gritos do capataz.
Ali estão os importantes e os humildes, e os escravos ficam livres dos seus donos.
“Por que os infelizes continuam vendo a luz? Por que deixar que vivam os que têm o coração amargurado?
Eles esperam a morte, e ela não vem, embora a desejem mais do que riquezas.
Eles ficam muito alegres e felizes quando por fim descem para a sepultura.
Deus os faz caminhar às cegas e os cerca de todos os lados.
“Em vez de comer, eu choro, e os meus gemidos se derramam como água.
Aquilo que eu temia foi o que aconteceu, e o que mais me dava medo me atingiu.
Não tenho paz, nem descanso, nem sossego; só tenho agitação.” (JÓ 3)

O PRIMEIRO DIÁLOGO

Então Elifaz, da região de Temã, em resposta disse:
“Jó, será que você ficará ofendido se eu falar? Mas quem é que pode ficar calado?
Você ensinou muita gente e deu forças a muitas pessoas desanimadas.
Quando alguém tropeçava, cansado e fraco, as suas palavras o animavam a ficar de pé.
Mas agora que chegou a sua vez de sofrer, como é que você perde a paciência e a coragem?
O seu temor a Deus não lhe dá confiança? A sua vida correta não o enche de esperança?
Você lembra de alguma pessoa inocente que tenha caído na desgraça ou de alguma pessoa honesta que tenha sido destruída?
Tenho notado que os que aram campos de maldade e plantam sementes de desgraça só colhem maldade e desgraça.
Como uma tempestade, Deus os destrói na Sua ira.
Eles rugem como um leão feroz, mas Deus os faz calar e lhes quebra os dentes.
Assim como leões que não podem caçar, eles morrem de fome, e os seus filhos se espalham.
“Veio a mim de mansinho uma mensagem, em voz tão baixa, que mal pude ouvir.
À noite, quando as pessoas dormem um sono pesado, eu tive um pesadelo que me deixou agitado.
O terror tomou conta de mim, e o meu corpo inteiro começou a tremer.
Um sopro passou pelo meu rosto, e eu fiquei todo arrepiado.
Alguém estava ali; olhei bem, mas não pude ver a sua forma. Houve silêncio, e depois ouvi uma voz, que disse:
‘Será que alguém pode ser correto diante de Deus? Será que alguém pode ser puro aos olhos do seu Criador?
Deus não confia nem nos Seus servidores celestiais e até nos Seus anjos Ele encontra defeitos.
Então você pensa que Ele vai confiar nos seres humanos, que são feitos de barro, que foram criados do pó e que podem ser esmagados como uma traça?
Podemos estar vivos de manhã, mas de tarde morremos para sempre, e ninguém se importa.
A nossa vida se acaba como cai uma barraca, e morremos sem termos alcançado a sabedoria.’ (JÓ 4)

“Grite, Jó! Veja se alguém responde. Que anjo você vai chamar?
Ficar desgostoso e amargurado é loucura, é falta de juízo, que leva à morte.
Uma vez vi um homem sem juízo que parecia estar progredindo na vida, mas eu amaldiçoei a família dele.
Os seus filhos não têm segurança; nos tribunais são condenados injustamente, e não há ninguém que os defenda.
Os famintos ficam cobiçando as suas riquezas; devoram as suas colheitas, pegando até o trigo que nasce entre os espinhos.
A aflição não brota da terra; a desgraça não nasce do chão:
somos nós mesmos que causamos o sofrimento, tão certo como as faíscas das brasas voam para cima.
“Jó, se eu fosse você, voltaria para Deus e entregaria o meu problema a ele.
Nós não podemos entender as coisas maravilhosas que Ele faz, e os seus milagres não têm fim.
Deus dá chuva à terra; Ele faz a água cair sobre os campos.
Deus põe os humildes nas alturas, põe num lugar seguro os que choram.
Deus faz com que os planos dos espertos falhem e que as suas ações fracassem;
Ele pega os sábios nas suas espertezas e acaba com as suas intrigas.
Em pleno dia eles ficam no escuro e ao meio-dia andam às cegas, apalpando como se fosse noite.
Deus salva da morte os pobres; Ele livra os necessitados das mãos dos poderosos.
Deus dá esperança aos fracos e tapa a boca dos maus.
“Feliz é aquele a quem Deus corrige! Por isso, não despreze o castigo do Deus Todo-Poderoso.
Deus fere, mas Ele mesmo faz o curativo; ele machuca, mas as suas mãos curam.
Vez após vez Deus salvará você do perigo e não deixará que nenhum mal lhe aconteça.
Em tempo de fome, Deus não deixará que você morra e em tempo de guerra Ele o salvará da espada.
Ele o protegerá das más línguas, e você não terá medo quando houver destruição.
Você se rirá quando houver violência e faltarem alimentos e não terá medo dos animais selvagens.
Nos seus campos as pedras não estorvarão o arado, e os animais selvagens não o atacarão.
Na sua casa você viverá em paz e, quando contar as suas coisas, não vai achar falta de nada.
Você terá muitos filhos, e os seus descendentes serão tantos como as folhas de capim no pasto.
Você vai morrer velho e forte, como um feixe de trigo colhido no tempo certo.
Jó, a vida nos ensina que é assim. Esta é a verdade; pense nisso para o seu próprio bem.” (JÓ 5)

Então em resposta Jó disse:
“Eu sei muito bem que as coisas são assim. Mas como é que uma pessoa pode provar a Deus que ela está com a razão?
Quem se atreve a discutir com Deus? Ele pode fazer mil perguntas a que ninguém é capaz de responder.
A Sua sabedoria é profunda, e o Seu poder é grande; quem pode desafiá-lo e vencer?
Sem aviso Ele muda de lugar os montes e na Sua ira os destrói.
Deus manda terremotos, e o chão treme; Ele abala as colunas que sustentam a terra.
Deus dá ordem, e o sol não nasce; Ele apaga a luz das estrelas.
Deus sozinho estendeu o céu; Ele pisou sobre as costas do Mar.
Deus criou as estrelas em grupos: a Ursa Maior, as Três-Marias e as Sete-Cabrinhas, e fez também as estrelas do Sul.
Deus faz coisas grandes e maravilhosas, e os Seus milagres não têm fim.
Deus passa perto de mim, e eu não vejo; Ele vai andando, e eu não percebo.
Se Deus quer ficar com alguma coisa, quem pode impedi-lo? Quem se atreve a perguntar: ‘O que estás fazendo?’
Deus não volta atrás na Sua ira; a seus pés caem derrotados os aliados do monstro Raabe.
“Quem sou eu, então, para responder a Deus? Onde vou achar palavras para discutir com Ele?
Ainda que eu tivesse razão, eu não responderia. Ele é o meu juiz; só posso pedir misericórdia.
Ainda que eu o chamasse ao tribunal, e Ele se apresentasse, não acredito que ouviria o meu caso.
Deus me esmaga com uma tempestade e sem motivo aumenta as minhas feridas.
Ele não me deixa nem respirar e enche de amargura a minha vida.
Farei uso da força? Ele é o forte. Chamarei Deus ao tribunal? E quem o obrigaria a comparecer?
Sou inocente e sincero, mas as minhas palavras me condenariam e me declarariam culpado.
Sou inocente, mas não me importo com isso; estou cansado de viver.
Para mim, é tudo a mesma coisa; por isso, digo que Deus destrói tanto os bons como os maus.
Se, de repente, uma desgraça mata pessoas inocentes, Deus ri.
Deus entregou o mundo nas mãos dos maus e cobriu os olhos dos juízes com uma venda. E, se não foi Deus quem fez isso, então quem foi?
“Os meus dias correm mais depressa do que um atleta; eles fogem sem ter visto a felicidade.
A minha vida passa como um barco ligeiro, como uma águia quando se lança sobre um coelho.
Posso tentar esquecer as minhas queixas, posso deixar o meu ar triste e voltar a ser alegre,
mas logo os meus sofrimentos me deixam apavorado, pois sei que Deus não acredita que eu seja inocente.
E, se Ele acha que sou culpado, não adianta nada lutar.
O sabão não pode lavar os meus pecados; o sabão mais forte não pode limpar o mal que cometi.
Deus me joga na lama, e até a minha roupa tem nojo de mim.
Deus não é um ser humano, como eu, e por isso não posso responder-lhe, nem podemos resolver a nossa questão no tribunal.
Para nós dois não há um juiz que possa julgar a mim e a Deus.
Ó Deus, pára de me castigar! Não me enchas de medo com os Teus terrores!
Então eu falarei e não terei medo, pois a minha consciência não me acusa. (JÓ 9)

“Estou cansado de viver. Vou me desabafar e falar da amargura que tenho no coração.
Ó Deus, não me condenes! Dize-me de que me acusas!
Tu mesmo me criaste. Como, então, podes ter prazer em me maltratar e desprezar e em aprovar os planos dos maus?
Por acaso, Tens olhos, como nós? Será que vês as coisas como nós vemos?
Por acaso, a Tua vida é tão curta como a nossa? Será que vives tão pouco quanto os seres humanos?
Então por que procuras saber de todos os meus pecados? Por que te informas das maldades que cometi?
Pois sabes que não sou culpado e que ninguém pode me salvar das Tuas mãos.
“As tuas mãos me fizeram, me deram forma e agora essas mesmas mãos me destroem.
Lembra que me fizeste de barro; vais me fazer virar pó outra vez?
Tu fizeste com que o meu pai e a minha mãe me gerassem, que me dessem a vida.
Formaste o meu corpo de ossos e nervos e os cobriste com carne e pele.
Tu me deste vida e me deste amor, e os Teus cuidados me conservam vivo.
Mas agora sei que no Teu coração tinhas este plano secreto:
Tu querias ver se eu ia pecar para depois me negares o Teu perdão.
Se sou culpado, estou perdido; se sou inocente, não tenho coragem para levantar a cabeça, pois fico envergonhado quando olho para a minha desgraça.
Se levanto a cabeça, orgulhoso da minha inocência, Tu, como um leão, me persegues; e até fazes milagres para me destruir.
Tu sempre tens testemunhas que me acusam; a Tua ira contra mim vai aumentando, e Tu me atacas sem parar, como se fosses um exército.
“Ó Deus, por que me deixaste nascer? Eu deveria ter morrido antes mesmo que alguém me visse.
Eu teria ido do ventre da minha mãe para a sepultura, teria sido como se nunca tivesse existido.
A minha vida está chegando ao fim. Então me deixa em paz! Deixa que eu tenha um pouco de alegria
antes que me vá na viagem que não tem volta, antes que vá para o país da escuridão e das trevas,
para o país das sombras e da desordem, onde a própria luz é como a escuridão.” (JÓ 10)

Ninguém pode reconstruir o que Deus derruba; e, se ele prende, ninguém pode soltar.
Quando Deus segura a chuva, vem a seca; quando deixa saírem as águas, há enchentes. (JÓ 12 v. 14-15)

“Será que alguém pode ser puro? Poderá alguma pessoa ser correta diante de Deus? (JÓ 15 v. 14)

AS FALAS DE ELIÚ

Jó estava convencido da sua inocência, e por isso os três amigos desistiram de continuar a discutir com ele.Acontece que ali estava um homem chamado Eliú, filho de Baraquel e descendente de Buz, do grupo de famílias de Rão. Eliú ficou muito zangado com Jó porque este dizia que era inocente e que Deus era culpado. E também ficou zangado com os três amigos porque eles não puderam responder a Jó, dando assim a idéia de que Deus estava errado. Eliú esperou para falar no fim, pois os outros eram mais velhos do que ele. Quando viu que eles não souberam como responder a Jó, Eliú ficou zangado. (JÓ 32 v. 1-5)

A PRIMEIRA FALA DE ELIÚ

Então Eliú, filho de Baraquel e descendente de Buz, disse: “Eu sou moço, e vocês são idosos. Foi por isso que não me atrevi a dar a minha opinião.
Pensei assim: ‘Que fale a voz da experiência, que os muitos anos mostrem a sua sabedoria!’
Mas acontece que dentro das pessoas há um espírito, há um sopro do Todo-Poderoso que dá sabedoria.
Nós não ficamos mais sábios com a idade, nem sempre os velhos sabem o que é certo.
Portanto, escutem o que digo, pois eu também vou dar a minha opinião.
“Esperei que vocês falassem e escutei as suas razões. Enquanto vocês escolhiam as melhores palavras,
eu prestava toda a atenção. Mas nenhum de vocês convenceu Jó, nem deu resposta às suas palavras.
Como é que vocês podem dizer que descobriram a sabedoria? É Deus, e não um ser humano, quem terá de dar resposta a Jó.
Eu nunca teria respondido como vocês; mas Jó estava falando com vocês e não comigo.
“Jó, estes três estão derrotados e não têm mais palavras para continuar a discutir.
Eles já pararam; não falam mais. Será que devo continuar esperando enquanto estão calados?
Não! Eu darei a minha resposta agora e direi o que penso sobre o assunto.
Tenho muito o que falar e já não consigo mais ficar calado.
Se eu não falar, sou capaz de estourar como um odre cheio de vinho novo.
Não agüento mais; preciso desabafar, quero dar a minha opinião.
Não vou tomar partido nesta discussão e não vou adular ninguém.
Eu não costumo bajular; e, se bajulasse, o Criador logo me castigaria.(JÓ 32)

“Por isso, Jó, escute as minhas palavras e preste atenção em tudo o que vou dizer.
Estou pronto para começar e vou falar o que penso.
Darei a minha opinião com franqueza; as minhas palavras serão sinceras, vindas do coração.
Pois foi o Espírito de Deus que me fez, e é o sopro do Todo-Poderoso que me dá vida.
“Responda-me, se for capaz; prepare-se para discutir comigo.
Para Deus você e eu somos iguais; eu também fui formado do barro.
Por isso, não tenha medo de mim; a minha intenção não é esmagar você.
“Creio que ouvi você dizer o seguinte:
‘Não sou culpado; não fiz nada de errado. Estou inocente; não cometi nenhum pecado.
É Deus quem inventa motivos para me atacar; ele me trata como se eu fosse um inimigo.
Ele amarrou os meus pés com correntes e fica vigiando tudo o que eu faço.’
“Mas eu lhe digo que você não tem razão, pois Deus é maior do que as criaturas humanas.
Por que você acusa Deus, afirmando que ele não dá atenção às nossas queixas?
Deus fala de várias maneiras, porém nós não lhe damos atenção.
De noite, na cama, quando dormimos um sono profundo, Ele fala por meio de sonhos ou de visões.
Deus fala aos nossos ouvidos, e os seus avisos nos enchem de medo.
Ele fala com a gente para que deixemos de pecar e para que não nos tornemos orgulhosos.
Assim, Ele nos livra da morte e não deixa que nos joguem na sepultura.
“Outras vezes, Deus castiga com doenças e com fortes dores que não passam.
O doente perde o apetite e não quer nem ver as comidas mais gostosas.
Ele emagrece, vai se acabando e no fim vira pele e osso.
Ele está às portas da morte; logo será levado para a sepultura.
“Pode ser que Ele venha a ser socorrido por um anjo, um dos milhares de anjos de Deus, que ensinam a gente a fazer o que é certo.
O anjo terá pena dele e pedirá a Deus: ‘Solta-o! Ele não deve descer ao mundo dos mortos. Aqui está o pagamento do seu resgate.’
Então ele terá saúde novamente, e o seu corpo será forte como era na juventude.
Quando orar, Deus o atenderá. Ele o adorará com alegria, e Deus o aceitará de novo como um homem direito.
Ele dirá a todos: ‘Pequei, cometi injustiças, mas Deus não me castigou.
Ele me salvou da morte; eu ainda posso ver a luz.’
“Deus faz tudo isso com a gente e faz várias vezes.
Ele não deixa que morramos, e assim continuamos a ser iluminados pela luz da vida.
“Agora, Jó, escute com atenção; fique calado, pois vou falar.
Se você tem alguma coisa a dizer, responda, pois eu gostaria de lhe dar razão.
Se não, fique calado e escute, que eu lhe ensinarei como ser sábio.” (JÓ 33)

A SENGUNDA FALA DE ELIÚ

Eliú disse mais:
“Vocês que são sábios e instruídos, escutem o que vou dizer.
Assim como os ouvidos julgam o valor das palavras, e o paladar prova os alimentos,
assim nós agora vamos examinar o caso e resolvê-lo do jeito que nos parecer melhor.
“Jó está dizendo que é inocente e que Deus não quer lhe fazer justiça.
E pergunta: ‘Como é que eu poderia mentir, dizendo que estou errado? Sofro de uma doença que não tem cura, embora não tenha cometido nenhum pecado.’
“Neste mundo não há ninguém como Jó, para quem é tão fácil zombar de Deus como beber um copo de água.
Ele anda com homens maus e se ajunta com gente que não presta.
E diz assim: ‘Não adianta nada procurar agradar a Deus.’
“Agora, vocês que têm juízo, me escutem. Será que Deus faria alguma coisa errada? Será que o Todo-Poderoso cometeria uma injustiça?
Ele nos paga de acordo com o que fazemos e dá a cada um o que merece.
Na verdade, o Deus Todo-Poderoso não faz o mal e não é injusto com ninguém.
Quem entregou o poder a Deus? Quem o fez governador do Universo?
Se Deus quisesse, poderia fazer voltar para Si o fôlego, a respiração da gente;
então todas as pessoas morreriam juntas, no mesmo instante, e voltariam de novo para o pó.
“Agora, Jó, se você é sábio, escute e preste atenção no que vou dizer.
Se Deus odiasse a justiça, não poderia governar o mundo. Será que você quer condenar aquele que é justo e poderoso?
Deus condena os reis e as autoridades quando são maus, quando não prestam.
Ele não mostra preferência pelas pessoas que estão no poder, nem favorece os ricos em prejuízo dos pobres, pois todos foram criados por Ele.
A morte pode vir de repente, no meio da noite. A pessoa tem um ataque e morre. Deus não precisa de ajuda para matar os poderosos.
Pois Ele sabe tudo o que fazemos e vê todos os passos que damos.
Não existe nenhum lugar, por mais escuro que seja, onde um pecador possa se esconder de Deus.
Deus não precisa marcar um dia para que uma pessoa se apresente a fim de ser julgada por Ele.
Ele não necessita de examinar a vida dos poderosos para acabar com eles e dar a outros o seu lugar.
Pois Deus conhece o que eles fazem; de noite Ele os derruba e esmaga.
Em público, na frente de todos, Deus os castiga como se fossem criminosos
porque eles se afastaram Dele e não quiseram obedecer a nenhum dos Seus mandamentos.
Eles fizeram com que os gritos dos pobres e explorados subissem até Deus, e Ele os escutou.
“Mas, se Deus se calar, ninguém poderá condená-lo. Se Ele esconder o rosto, as pessoas e as nações ficarão sem defesa
e nada poderão fazer para evitar que homens maus as governem e explorem.
“Jó, será que você já reconheceu diante de Deus que você sofreu por causa dos seus pecados e que prometeu que não vai pecar mais?
Será que você pediu a Deus que lhe mostrasse as suas faltas e resolveu parar de praticar o mal?
Se você não aceita o que Deus faz, como espera que Ele faça o que você quer? Você é quem precisa responder, e não eu; diga-nos o que está pensando.
“As pessoas sábias e sensatas que me estão escutando certamente dirão assim:
‘Jó não sabe o que está falando; o que ele diz não faz sentido.
É só examinar bem as suas palavras, e a gente vê que ele responde como um perverso.
Jó é pecador, um pecador rebelde. Na nossa presença, zomba de Deus e não pára de falar contra ele.’” (JÓ 34)

A TERCEIRA FALA DE ELIÚ

Em seguida Eliú disse:
“Jó, você não tem o direito de dizer que para Deus você é inocente
e também não pode perguntar assim: ‘Ó Deus, será que Te sentes mal com o meu pecado? E que vantagem tenho se não pecar?’
Pois eu vou responder a você e também aos seus amigos.
“Olhe para o céu e veja como as nuvens estão muito acima de você.
Se você peca, isso não atinge a Deus lá no alto; as suas faltas, por muitas que sejam, não vão prejudicar a Deus.
Se você faz o bem, não está ajudando a Deus; Ele não precisa de nada que é seu.
São os outros que sofrem por causa dos pecados que você comete; e também são eles que são ajudados quando você pratica o bem.
“Os homens, quando são perseguidos por todos os lados, gemem e gritam, pedindo que alguém os livre das mãos dos poderosos;
porém não voltam para Deus, o seu Criador, que dá forças nas horas mais escuras.
Eles não voltam para Deus, que os torna sábios, mais sábios do que as aves e os animais.
Eles gritam por socorro, mas Deus não responde porque são orgulhosos e maus.
Mas é falso dizer que Deus não ouve ou que o Todo-Poderoso não vê.
“Jó, você diz que não pode ver a Deus; mas espere com paciência, pois a sua causa está com Ele.
Você pensa que Deus não castiga, que Ele não presta muita atenção no pecado.
Não adianta nada continuar o seu discurso; você fala muito, porém não sabe o que está dizendo.” (JÓ 35)

A QUARTA FALA DE ELIÚ

Eliú continuou a falar. Ele disse:
“Jó, tenha um pouco mais de paciência, pois ainda vou lhe mostrar que tenho outras coisas a dizer a favor de Deus.
Usarei os meus profundos conhecimentos para mostrar que Deus, o meu Criador, é justo.
Tudo o que vou dizer é verdade; quem está falando com você é realmente um sábio.
“Como Deus é poderoso! Ele não despreza ninguém. Deus sabe todas as coisas.
Ele não deixa que os maus continuem vivendo e sempre trata os pobres com justiça.
Deus protege os homens corretos, deixa que eles governem como reis e assim tenham uma alta posição para sempre.
Mas, se alguns são presos com correntes ou são amarrados com as cordas dos sofrimentos,
então Deus lhes mostra que isso é por causa do que fizeram, que é o castigo pelos seus pecados e pelo seu orgulho.
Deus faz com que escutem os seus avisos e manda que abandonem o pecado.
Se obedecem a Deus e o adoram, então têm paz e prosperidade até o fim da vida.
Mas, se não se importam com Deus, então morrem na ignorância, atravessam o rio e entram no mundo dos mortos.
“Aqueles que têm um coração perverso guardam raiva e, mesmo quando são castigados, não clamam pedindo socorro.
Desonram o seu corpo entre si e morrem em plena mocidade.
Mas Deus nos ensina por meio do sofrimento e usa a aflição para abrir os nossos olhos.
“Jó, Deus o livrou dos perigos e o deixou viver em segurança. À sua mesa sempre se comeu do bom e do melhor.
Mas você foi julgado e condenado e agora está recebendo o castigo que merece.
Cuidado, não aceite dinheiro para torcer a justiça, não deixe que as muitas riquezas o seduzam.
Não adianta nada gritar pedindo socorro; todo o seu poder não tem nenhum valor agora.
Não fique desejando que chegue a noite em que as nações serão destruídas.
Você está sofrendo por causa da sua maldade; cuidado, não se volte para ela!
“Como é grande o poder de Deus! Quem é capaz de governar tão bem como ele?
Ninguém pode dar ordens a Deus, nem acusá-lo de praticar o mal.
O mundo inteiro o louva pelo que Ele faz, e você também não esqueça de louvá-lo.
Mesmo de longe todos nós vemos e admiramos o que Deus está fazendo.
Ele é grande demais para que o possamos conhecer; nós não podemos calcular quantos anos já viveu. (JÓ 36)

Deus troveja com a sua voz maravilhosa; Ele faz grandes coisas que não podemos compreender.
Deus manda que caia neve sobre a terra e também fortes pancadas de chuva.
Assim, faz com que as pessoas fiquem em casa, sem poderem trabalhar, para que todos saibam que é ele quem age. Deus faz cair chuva sobre a terra ou para castigar a gente ou para mostrar que tem amor por nós. Eu não teria o atrevimento de discutir com Deus, pois isso seria pedir que Ele me destruísse. Não podemos compreender o Todo-Poderoso, o Deus de grande poder. A Sua justiça é infinita, e Ele não persegue ninguém.
Por isso, as pessoas o temem, e ele não dá importância aos que acham que são sábios.” (JÓ v. 5-7, 13, 20, 23-24)

A PRIMEIRA RESPOSTA DE DEUS A JÓ

Depois disso, do meio da tempestade, o Senhor deu a Jó a seguinte resposta:
“As suas palavras só mostram a sua ignorância; quem é você para pôr em dúvida a Minha sabedoria?
Mostre agora que é valente e responda às perguntas que lhe vou fazer.
“Onde é que você estava quando criei o mundo? Se você é tão inteligente, explique isso.
Você sabe quem resolveu qual seria o tamanho do mundo e quem foi que fez as medições?
Em cima de que estão firmadas as colunas que sustentam a terra? Quem foi que assentou a pedra principal do alicerce do mundo?
Na manhã da criação, as estrelas cantavam em coro, e os servidores celestiais soltavam gritos de alegria.
“Quando o Mar jorrou do ventre da terra, quem foi que fechou os portões para segurá-lo?
Fui Eu que cobri o Mar com as nuvens e o envolvi com a escuridão.
Marquei os seus limites e fechei com trancas as suas portas.
E Eu lhe disse: ‘Você chegará até este ponto e daqui não passará. As suas altas ondas pararão aqui.’
“Jó, alguma vez na sua vida você ordenou que viesse a madrugada e assim começasse um novo dia?
Você alguma vez mandou que a luz se espalhasse sobre a terra, sacudindo os perversos e os expulsando dos seus esconderijos?
A luz do dia mostra as formas das montanhas e dos vales, como se fossem as dobras de um vestido ou as marcas de um sinete no barro.
Essa luz é clara demais para os perversos e os impede de praticar a violência.
“Jó, você já visitou as nascentes do mar? Já passeou pelo fundo do oceano?
Alguém já lhe mostrou os portões do mundo dos mortos, aquele mundo de escuridão sem fim?
Você tem alguma idéia da largura da terra? Responda, se é que você sabe tudo isso.
“De onde vem a luz, e qual é a origem da escuridão?
Você sabe mostrar a elas até onde devem chegar e depois fazer com que voltem outra vez ao ponto de partida?
Sim, você deve saber, pois é bem idoso e já havia nascido quando o mundo foi criado…
“Você alguma vez visitou os depósitos onde Eu guardo a neve e as chuvas de pedra,
que ficam reservadas para tempos de sofrimento e para dias de lutas e de guerras?
Você já esteve no lugar onde nasce o sol ou no ponto onde começa a soprar o vento leste?
“Quem foi que abriu um canal para deixar cair os aguaceiros e marcou o caminho por onde a tempestade deve passar?
Quem faz a chuva cair no deserto, em lugares onde ninguém mora?
Quem rega as terras secas e despovoadas, fazendo nascer nelas o capim?
Será que a chuva e o orvalho têm pai?
E quem é a mãe do gelo e da geada,
que faz com que as águas virem pedra e que o mar fique coberto por uma camada de gelo?
“Será que você pode amarrar com uma corda as estrelas das Sete-Cabrinhas ou soltar as correntes que prendem as Três-Marias?
Você pode fazer aparecer a estrela-d’alva, ou guiar a Ursa Maior e a Ursa Menor?
Você conhece as leis que governam o céu e sabe como devem ser aplicadas na terra?
“Será que a sua voz pode chegar até as nuvens e mandar que caia tanta chuva, que você fique coberto por um dilúvio?
Você pode fazer com que os raios apareçam e venham dizer-lhe: ‘Estamos às suas ordens?’
Quem deu sabedoria às aves, como o íbis, que anuncia as enchentes do rio Nilo, ou como o galo, que canta antes da chuva?
Quem é capaz de contar as nuvens? Quem pode derramar a sua água em forma de chuva,
que faz o pó virar barro, ligando os torrões uns aos outros?
“Será que é você quem dá de comer às leoas e mata a fome dos leõezinhos,
quando estão escondidos nas suas covas ou ficam de tocaia nas moitas?
Quem é que alimenta os corvos, quando andam de um lado para outro com fome, quando os seus filhotes gritam a mim pedindo comida? (JÓ 38)

“Você sabe quando nascem os cabritos selvagens ou já viu nascerem as corças?
Você sabe quantos meses as suas fêmeas levam para darem cria ou qual é o momento do parto?
Você sabe quando elas se abaixam para dar cria, trazendo a este mundo os seus filhotes?
Os filhotes crescem fortes, no campo; depois vão embora e não voltam mais.
“Quem deu a liberdade aos jumentos selvagens? Quem os deixou andar soltos, à vontade?
Eu lhes dei o deserto para ser a sua casa e os deixei viver nas terras salgadas.
Eles não querem saber do barulho das cidades; não podem ser domados, nem obrigados a levar cargas.
Eles pastam nas montanhas, onde procuram qualquer erva verde para comer.
“Será que um touro selvagem vai querer trabalhar para você? Será que ele vai passar a noite no seu curral?
Será que você consegue prendê-lo com cordas ao arado a fim de arar a terra ou puxar o rastelo?
Será que você pode confiar na grande força que ele tem, deixando por conta dele o trabalho pesado que há para fazer?
Você espera que ele traga o trigo que você colher e o amontoe no terreiro?
“Como batem rápidas as asas da avestruz! Mas nenhuma avestruz voa como a cegonha.
A avestruz põe os seus ovos no chão para que a areia quente os faça chocar.
Ela nem pensa que alguém vai pisá-los ou que algum animal selvagem pode esmagá-los.
Ela age como se os ovos não fossem seus e não se importa que os seus esforços fiquem perdidos.
Fui Eu que a fiz assim, sem juízo, e não lhe dei sabedoria.
Porém, quando ela corre, corre tão depressa, que zomba de qualquer cavalo e cavaleiro.
“Jó, por acaso, foi você quem fez os cavalos tão fortes? Foi você quem enfeitou o pescoço deles com a crina?
É você quem os faz pular como gafanhotos e assustar as pessoas com os seus rinchos?
Impacientes, eles cavoucam o chão com as patas e correm para a batalha com todas as suas forças.
Eles não têm medo. Nada os assusta, e a espada não os faz recuar.
Por cima deles, as flechas assobiam, e as lanças e os dardos brilham.
Tremendo de impaciência, eles saem galopando e, quando a corneta soa, não podem parar quietos.
Eles respondem com rinchos aos toques das cornetas; de longe sentem o cheiro da batalha e ouvem a gritaria e as ordens de comando.
“É você quem ensina o gavião a voar e abrir as asas no seu vôo para o Sul?
Será que a águia espera que você dê ordem a fim de que ela faça o seu ninho lá no alto?
Ela mora nas pedras mais altas e no alto das rochas constrói o seu ninho seguro.
Dali enxerga o animal que ela vai atacar, os seus olhos o avistam de longe.
Onde há um animal morto, aí se ajuntam as águias, e os filhotes chupam o sangue.” (JÓ 39)

A PRIMEIRA RESPOSTA DE JÓ A DEUS

Então o Senhor disse:
“Jó, você desafiou a Mim, o Deus Todo-Poderoso. Vai desistir ou vai Me dar uma resposta?”
Então, em resposta ao Senhor, Jó disse:
“Eu não valho nada; que posso responder? Prefiro ficar calado.
Já falei mais do que devia e agora não tenho nada para dizer.” (JÓ 40 v. 1-5)

ASEGUNDA RESPOSTA DE DEUS A JÓ

Então, do meio da tempestade, Deus respondeu a Jó assim:
“Mostre agora que é valente e responda às perguntas que lhe vou fazer.
Será que você está querendo provar que Sou injusto, que Eu Sou culpado, e você é inocente?
Será que a sua força pode ser comparada com a Minha? Será que você pode trovejar com voz tão forte como Eu?
Se você pode, então vista-se de glória e grandeza e enfeite-se com majestade e esplendor.
Olhe para todos os orgulhosos; faça explodir a sua raiva contra eles e humilhe-os.
Sim, olhe para eles e humilhe-os; esmague os perversos no lugar onde estão.
Sepulte-os todos na terra; amarre-os na prisão dos mortos.
Se você fizer isso, Eu serei o primeiro a louvá-lo e a reconhecer que você venceu pelas suas próprias forças.
“Olhe para o monstro Beemote, que Eu criei, como também criei você. Ele come capim como o boi,
mas veja quanta força tem e como são poderosos os seus músculos!
O seu rabo levantado é duro como um galho de cedro, e nos músculos das suas pernas ele tem muita força.
Os seus ossos são fortes como canos de bronze, e as suas pernas são como barras de ferro.
Ele é a mais espantosa das minhas criaturas. Só Eu, o seu Criador, Sou capaz de vencê-lo.
O capim que o alimenta cresce nas montanhas, onde as feras se divertem.
Ele se deita debaixo dos espinheiros e se esconde no brejo, entre as taboas.
Os espinheiros lhe dão sombra; os salgueiros do ribeirão o rodeiam.
Se há uma enchente, ele não se assusta; e fica tranqüilo mesmo que a água do rio Jordão suba até o seu focinho.
Quem é capaz de cegá-lo e agarrá-lo ou de prender o seu focinho numa armadilha?(JÓ 40 v. 6-24)

“E, quanto ao monstro Leviatã, será que você pode pescá-lo com um anzol ou amarrar a sua língua com uma corda?
Você é capaz de passar uma corda pelo nariz dele ou furar o seu queixo com um gancho?
Será que ele vai pedir que você o solte ou implorar que tenha dó dele?
Será que ele vai fazer um trato com você, prometendo trabalhar para você o resto da vida?
Será que você vai brincar com ele, como se fosse um passarinho? Você vai amarrá-lo, a fim de servir como um brinquedo para as suas empregadas?
Será ele vendido por um grupo de pescadores? Será que para isso o cortarão em pedaços?
Será que você pode enterrar lanças no seu couro ou fincar arpões de pesca na sua cabeça?
Tente encostar a mão nele, e será uma vez só, pois você nunca mais esquecerá a luta.
Só de olhar para o monstro Leviatã as pessoas perdem toda a coragem e desmaiam de medo.
Se alguém o provoca, ele fica furioso. Quem se arriscaria a desafiá-lo?
Quem pode enfrentá-lo sem sair ferido? Ninguém, no mundo inteiro.
“Agora vou falar das pernas do Leviatã, do seu tamanho e da sua força sem igual.
Quem pode arrancar o couro que o cobre ou furar a sua dupla couraça?
Quem é capaz de fazê-lo abrir a sua queixada rodeada de dentes terríveis?
As suas costas são cobertas de fileiras de escamas ligadas umas com as outras e duras como pedras.
Estão coladas tão bem umas nas outras, que nem o ar passa entre elas.
Estão ligadas entre si e bem coladas, de modo que ninguém pode separá-las.
Quando o Leviatã espirra, saem faíscas; os seus olhos brilham como o sol ao amanhecer.
A sua boca lança chamas, e dela saltam faíscas de fogo.
O seu nariz solta fumaça, como a de galhos que queimam debaixo de uma panela.
O seu sopro acende o fogo, e da sua boca saem chamas.
A sua força está no pescoço, e a cara dele mete medo em todo mundo.
No seu couro não existe ponto fraco; ele é firme e duro como ferro.
O seu coração cruel não tem medo; é duro como uma pedra de moinho.
Quando ele se levanta, até os mais fortes ficam apavorados; o medo os impede de agir.
Não há espada que consiga feri-lo, nem lança, nem flecha, nem arpão.
Para ele, o ferro é como palha, e o bronze, como pau podre.
As flechas não o fazem fugir. Jogar pedras nele é como jogar capim.
Bater nele com um porrete é o mesmo que bater com uma torcida de palha; ele zomba dos homens que lhe atiram lanças.
A sua barriga é coberta de cacos pontudos, que reviram a lama como se fossem uma grade de ferro.
Ele agita o mar e o faz ficar como água que ferve na panela, como o óleo fervendo no caldeirão.
Ele vai deixando na água um rastro luminoso, como se o mar tivesse uma cabeleira branca.
Não há nada neste mundo que se compare com ele, pois foi feito para não ter medo.
O Leviatã olha para tudo com desprezo e entre todas as feras orgulhosas ele é rei.” (JÓ 41)

A ÚLTIMA RESPOSTA DE JÓ

Então, em resposta ao Senhor, Jó disse:
“Eu reconheço que para Ti nada é impossível e que nenhum dos Teus planos pode ser impedido.
Tu me perguntaste como me atrevi a pôr em dúvida a Tua sabedoria, visto que sou tão ignorante. É que falei de coisas que eu não compreendia, coisas que eram maravilhosas demais para mim e que eu não podia entender.
Tu me mandaste escutar o que estavas dizendo e responder às Tuas perguntas.
Antes eu Te conhecia só por ouvir falar, mas agora eu Te vejo com os meus próprios olhos.
Por isso, estou envergonhado de tudo o que disse e me arrependo, sentado aqui no chão, num monte de cinzas.” (JÓ 42 v. 1-6)

A CENA FINAL

Depois que acabou de falar com Jó, o Senhor disse a Elifaz, da região de Temã:
- Estou muito irado com você e com os seus dois amigos, pois vocês não falaram a verdade a Meu respeito, como o Meu servo Jó falou. Agora peguem sete touros e sete carneiros, levem a Jó e ofereçam como sacrifício em favor de vocês. O Meu servo Jó orará por vocês, e Eu aceitarei a sua oração e não os castigarei como merecem, embora vocês não tenham falado a verdade a Meu respeito, como Jó falou.
Então Elifaz, que era da região de Temã, Bildade, que era da região de Sua, e Zofar, que era da região de Naamá, foram e fizeram o que o Senhor havia mandado, e Ele aceitou a oração de Jó.
Depois que Jó acabou de orar pelos seus três amigos, o Senhor fez com que ele ficasse rico de novo e lhe deu em dobro tudo o que tinha tido antes.  Todos os seus irmãos e irmãs e todos os seus amigos foram visitá-lo e tomaram parte num banquete na casa dele. Falaram de como estavam tristes pelo que lhe havia acontecido e o consolaram por todas as desgraças que o Senhor havia feito cair sobre ele. E cada um lhe deu dinheiro e um anel de ouro.
O Senhor abençoou a última parte da vida de Jó mais do que a primeira. Ele chegou a ter catorze mil ovelhas, seis mil camelos, dois mil bois e mil jumentas. Também foi pai de sete filhos e três filhas. À primeira deu o nome de Jemima; à segunda chamou de Cássia; e à terceira, de Querém-Hapuque.  No mundo inteiro não havia mulheres tão lindas como as filhas de Jó. E o pai as fez herdeiras dos seus bens, junto com os seus irmãos.
Depois disso, Jó ainda viveu cento e quarenta anos, o bastante para ver netos e bisnetos. E morreu bem velho. (JÓ 42)

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